ERRATA? NÃO, PREMONIÇÃO: A CONTA DE MENDONÇA QUE NÃO FECHA NEM COM MILAGRE
Na edição do último dia 15 de setembro, este CORREIO NACIONAL publicou uma reportagem apontando que a súbita timidez do ministro André Mendonça em escancarar os sigilos telefônicos de Daniel Vorcaro guardava relação direta com dinheiros milionários irrigando o seu ecossistema. Na ocasião, a claque de gabinetes e os defensores da retórica da “imparcialidade” vociferaram contra a nossa apuração.
Vimos a público hoje, portanto, para prestar o nosso mais sincero pedido de desculpas… por termos sido econômicos.
A realidade, sempre caprichosa em Brasília, provou que a nossa reportagem não errou — apenas ficou aquém do refinamento do negócio. Veio à luz a confirmação de que o ministro recebeu a bagatela de R$ 5 milhões vinda diretamente das mãos de um sócio do próprio Vorcaro. A transação, que nasceu sob a roupagem de uma aprazível sociedade comercial entre o magistrado e o operador financeiro, passou por uma mágica metamorfose jurídica e foi subitamente rebatizada de “empréstimo pessoal”.
Um empréstimo com taxas genuinamente bolsonarianas de juros e condições de pagamento que fariam qualquer banco de varejo chorar de inveja: até o presente momento, o nobre ministro quitou a impressionante marca de pouco mais de 5% do total do saldo.
Diante de tamanha generosidade privada, o CORREIO NACIONAL se vê na obrigação de lançar ao leitor a única pergunta que a liturgia da Corte insiste em não fazer: não fosse a toga no ombro e a cadeira no STF, haveria na praça algum ser humano de boa alma disposto a entregar R$ 5 milhões a perder de vista para André Mendonça?
A benevolência, contudo, não para na pessoa física. A matemática do terrivelmente bem-sucedido magistrado estende-se ao seu antigo instituto — aquele do qual ele era proprietário até outro dia. Trata-se do mesmo instituto que subitamente virou o destino preferido das verbas de prefeituras geridas pelo campo bolsonarista, que jorraram outros tantos milhões em contratos que dispensam qualquer esforço de explicitação.
O CORREIO NACIONAL reforça, assim, o seu compromisso com a exatidão: não erramos dia 15. Apenas assistimos, em tempo real, ao encontro marcado entre a moralidade de fachada e as planilhas bancárias do mundo real.
Resgatado do Direito Romano para proteger o acusado na dúvida, o secular princípio expõe o absurdo das ilações na Suprema Corte: enquanto se tenta incinerar Moraes com mensagens ambíguas, os rastros de R$ 5 milhões em propina e bilhões sangrados da previdência pública por Daniel Vorcaro apontam sem escalas para o ecossistema político de André Mendonça.
BRASÍLIA — No alicerce da civilização jurídica ocidental impera a máxima romana in dubio pro reo — formulada para garantir que, diante do impasse ou da dúvida razoável, a decisão penda invariavelmente em favor do acusado. O conceito, gestado no Digesto de Justiniano como pilar contra o arbítrio estatal, parece ter sido sumariamente soterrado na Praça dos Três Poderes. Na tentativa desesperada de emparelhar a sigla “A.M.” ao nome do ministro Alexandre de Moraes em supostas menções colhidas nas apurações sobre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, a claque acusadora finge ignorar a hermenêutica mais elementar e os fatos materiais: toda a teia financeira, partidária e ideológica do escândalo gravita, na realidade, no entorno do ministro André Mendonça.
A aplicação apressada da sigla “A.M.” a Moraes desafia não apenas a lógica processual, mas a própria gravidade dos fatos. Do ponto de vista histórico, o princípio do in dubio pro reo surge no Direito Romano justamente para impedir que ilações, suposições ou narrativas encomendadas condenem um cidadão sem a certeza absoluta do delito. Transferido para o xadrez do STF, o benefício da dúvida — associado ao rigor dos indícios — torna a acusação a Moraes um exercício de pura acrobacia contorcionista.
Afinal, as conexões de Daniel Vorcaro e do combalido Banco Master não cruzam os caminhos da ala progressista ou institucional da Corte, mas sim a espinha dorsal do bolsonarismo. O próprio Vorcaro admitiu em tratativas de delação premiada que os R$ 5 milhões irrigados nas eleições de 2022 para as campanhas de Jair Bolsonaro (PL) e Tarcísio de Freitas (Republicanos) não passaram de propina disfarçada. Não há mistério: o dinheiro erguido às custas da derrocada financeira de aposentados encontrou abrigo direto no ninho político que alçou André Mendonça à Suprema Corte sob o carimbo de “terrivelmente evangélico”.
Para além das doações diretas de campanha, o mapa do sangramento dos fundos de previdência estaduais e municipais (RPPS) alocados nas letras financeiras do Banco Master desenha uma geografia partidária cristalina. Dinheiro limpo de servidores e aposentados foi empurrado para o “fundo podre” da instituição sob a regência de governadores e prefeitos intrinsecamente ligados ao grupo político de Mendonça:
Governo do Rio de Janeiro (Cláudio Castro – PL): R$ 970 milhões do Rioprevidência aplicados no fundo podre.
Governo do Amazonas (Wilson Lima – União Brasil): R$ 50 milhões do fundo estadual transferidos ao Master.
Prefeitura de São Roque/SP (Guto Issa – PSD): R$ 93,15 milhões comprometidos.
Prefeitura de Cajamar/SP (Danilo Joan / Kauan Berto – PSD): R$ 87 milhões de recursos previdenciários.
Prefeitura de Araras/SP (Irineu Marretto – PSD): R$ 29 milhões aplicados.
Prefeitura de Aparecida de Goiânia/GO: R$ 40 milhões em ativos do banco.
Prefeitura de Santa Rita d’Oeste/SP (Osmarzinho – PL): R$ 2 milhões injetados na instituição.
CONCLUINDO,
ao confrontar o brocardo romano com a crueza dos números, a tentativa de colar a rubrica “A.M.” na túnica de Alexandre de Moraes expõe o cinismo de uma narrativa fabricada sob medida.
Se o princípio secular manda buscar a verdade real e proteger o acusado contra a dúvida fabricada, a matemática do escândalo aponta o dedo na direção oposta. Entre doações milionárias à extrema-direita e o saque sistemático à previdência promovido por aliados, a única sigla que guarda nexo de causalidade com o ecossistema do Banco Master atende pelo nome de André Mendonça. O resto é apenas fumaça lançada para proteger os verdadeiros padrinhos do banquete.
Análise das investigações do escândalo do Banco MasterEsta reportagem detalha as apurações da Polícia Federal sobre o escândalo do Banco Master e os desdobramentos das doações de campanha vinculadas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
“Ameaçada de cassação de concessão pelo bolsonarismo durante quatro anos, a TV Globo agora afaga André Mendonça no altar da imparcialidade para criar um ‘novo Moro’.”
A memória da grande mídia brasileira é tão curta quanto os seus interesses editoriais são pragmáticos. Durante o mandato de Jair Bolsonaro, a Família Marinho e a TV Globo foram alvo constante do ódio do Palácio do Planalto, convivendo com ameaças abertas de não renovação da concessão de TV e discursos incitadores de violência contra seus jornalistas. Hoje, contudo, assistimos a um espetáculo constrangedor de contorcionismo editorial: a mesma emissora trabalha para transformar André Mendonça em uma figura ilibada.
Para quem acompanhou a ascensão e queda da Operação Lava Jato, o filme é repetido e enfadonho. Assim como transformaram Sergio Moro em um “santo de pau oco” — ignorando suas ilegalidades até que o estrago ao devido processo legal fosse irreversível —, os veículos da Globo parecem ter assinado um pacto de conveniência com o projeto político de Flávio Bolsonaro.
A cobertura leniente em relação a André Mendonça passa pano de forma escandalosa para os seus abusos no caso do Banco Master. As manchetes passam ao largo das denúncias de vazamento seletivo e ignoram a gravidade dos seus encontros com advogados do banco falido e com o próprio marginal. Tratam a atuação ativista de um ministro do STF como se fosse mero “rigor republicano”. Enquanto isso demonizam o fato de o Ministro Alexandre de Moraes ter lido o contrato de sua esposa com o Banco Master. – Mas ele não deveria ler, inclusive para saber qual o tipo de atuação e os termos que a esposa se comprometeria? Acaso não é comum familiares dos Ministros advogarem? O que se deve perguntar é o seguinte: Alexandre de Moraes tomou alguma decisão como ministro do STF que beneficiou o marginal ligado à família Bolsonaro? Ao que se tem provado até agora não. Ao contrário do Ministro André Mendonça que direcionou colhimento de provas contra o próprio Moraes e o filho do Presidente Lula e vazou influenciando diretamente nas eleições. Mas e as provas juntadas por Mendonça sobre possível comunicação entre Moraes e Vorcaro? Pois é, como saber se não é mais uma manobra ou manipulação do Ministro André Mendonça, ora, uma vez que ele claramente pinçou tudo o que pudesse incriminar ou gerar a sensação de proximidade de Moraes e Vorcaro, como saber até onde foi sua sanha por promover a corrupção do devido processo legal. Caso o cidadão comum não saiba, quem tem um pouco mais de conhecimento jurídico, sabe que há um rito legal para custodiar as provas de qualquer processo; rito este que foi corrompido de forma criminosa por André Mendonça. Afinal, por que ele não vazou os contratos da família de todos os Ministro com o chamado pelo bolsonaristas de “Dani” Vorcaro?
Vejamos os números que foram aventados na mídia e acobertados pelo Ministro Terrivelmente Parcial:
Dias Toffoli (Irmão e Sobrinho) O caso envolvendo Toffoli orbita ao redor da venda oculta da participação da família no resort de luxo Tayayá, localizado em Ribeirão Claro (PR)
A transação imobiliária:
R$ 35 milhões: Montante movimentado por fundos de investimento ligados a Daniel Vorcaro para aportar no resort de luxo. Extratos mostram que o cunhado e operador de Vorcaro, o pastor Fabiano Zettel, injetou os recursos simultaneamente ao período em que se costurava a entrada na sociedade com a família do ministro.
R$ 3,3 milhões: Valor nominal das cotas societárias da empresa Maridt Participações S.A. compradas pelo fundo de Vorcaro (FIP Arleen).
R$ 150: Capital social total oficialmente declarado da Maridt Participações S.A.. O ministro não aparece formalmente no quadro da Junta Comercial do Estado de São Paulo, mas a empresa é gerida e de propriedade de seu irmão, José Eugênio Dias Toffoli, e de seu sobrinho, Igor Pires Toffoli. O empreendimento total do resort é avaliado em mais de R$ 200 milhões.
Kassio Nunes Marques (Filho)
As suspeitas apontam para o uso de empresas de consultoria como intermediárias de pagamentos a parentes de magistrados.
R$ 281,6 mil: Repasse rastreado pelo Coaf feito por essa mesma consultoria (Consult Inteligência) diretamente para o escritório de advocacia de Kevin Marques, filho do ministro Nunes Marques. O Coaf levantou a suspeita de que a consultoria atuava como uma “conta de passagem” para ocultar a origem formal dos repasses. O filho do ministro declarou que o valor recebido refere-se a serviços lícitos de assessoria jurídica na esfera do fisco administrativo.
Repasses via Consultoria:
R$ 6,6 milhões: Valor enviado pelo Banco Master de Daniel Vorcaro, dividido em 14 operações (entre o final de 2024 e meados de 2025), para a empresa Consult Inteligência. No mesmo período, a consultoria também recebeu R$ 11,3 milhões da JBS, somando um caixa de R$ 18 milhões. O Santo de Pau Oco tem dois pesos e duas medidas: enquanto inocentou aprioristicamente o antipetista da Bahia ACM Filho que recebeu R$ 3 milhões de Daniel Vorcaro para fazer lobby para o banqueiro junto a autoridades políticas. Já no caso envolvendo o filho de Lula, uma das primeiras ações de André Mendonça foi determinar a devassa na vida do denominado publicamente “Lulinha” para tentar atrelá-lo ao conhecido “Careca do INSS” – corrupto que montou um esquema bilionário de roubo de dinheiro público no Governo Bolsonaro; Mendonça inclusive tirou o sigilo bancário de Lulinha e não encontrou nada. Não satisfeito o Ministro Cabo Eleitoral determinou então abertura de processo por tráfico de influência alegando que Roberta Luchsinger havia tentado (mas não conseguido) fazer lobby para liberação de medicamentos junto à presidência da república. Quando vemos as provas, só vemos a tal Roberta Luchsinger tentando usar o nome de Lulinha para superar a burocracia e conseguir a aprovação – o que não conseguiu. Já ACM Neto fazendo lobby não seria nada, seria um ato normal não tipificado como crime no Brasil. E o filho do Bolsonaro que foi flagrado pedindo R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro depois que todos já sabiam que ele era um dos maiores ladrões da república? Este até hoje tem sido protegido pelo novo “Sérgio Moro” da República.
Honestamente, qual dos dois filhos mereceria uma investigação mais aprofundada? Qual deles tem mais evidências de estar cometendo crime? O filho de Lula que não conseguiu seu intento junto à presidência da república ou o filho Flávio Bolsonaro flagrado fazendo a rachadona de R$ 134 milhões do dinheiro roubado dos aposentados? Por que André Mendonça não quebra o sigilo bancário e torna público de Flávio Bolsonaro? Por que não investiga o dinheiro recebido por Flávio Bolsonaro da rachadona dele com Daniel Vorcaro – o ladrão de aposentados? Alguém tem dúvida por quê?
A razão para essa “Síndrome de Estocolmo editorial” é cristalina: o interesse do capital financeiro e o pragmatismo político. A reabilitação de Mendonça serve perfeitamente ao propósito de desgastar o atual governo e manter o controle da pauta sobre o Judiciário. Os Marinho demonstram que, para salvar a agenda econômica e manter a influência nos bastidores de Brasília, estão dispostos a abraçar os mesmos nomes que, até ontem, pediam a cabeça de seus repórteres e o fim de sua emissora. Mendonça é o novo santo de barro esculpido no Projac. E a história, impiedosa como é, já sabe como essa estátua vai ruir.
Heren Low BR
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